Por Artur Bernardes
Se você chegar em uma quadra de escola de samba e perguntar por Paulo Botelho , com certeza poucas pessoas vão saber responder, mas se você perguntar pelo "Mestre Paulinho", a resposta será diferente. Não tem como dizer que não conhece esse carioca nascido nas Laranjeiras, mas criado na Tijuca, casado, vascaino, músico de mão cheia, tendo tocado com ínúmeros artistas nacionais, como o Rei Roberto Carlos , Simone e Zeca Pagodinho, e também internacionas com o maestro Isac Karabtsnewsk e Rick Martin. No próximo Carnaval, esse vascaíno e apaixonado por música volta à Sapucaí, depois de coordenar os ritmistas do Salgueiro,agora dividindo o comando da bateria da Unidos de VIla Isabel. Para contar suas experiências, Mestre Paulinho gentilmente abriu as portas de sua casa e do seu coração nessa entrevista exclusiva.
Como surgiu essa sua paixão pelo samba e pelo carnaval?
Aos nove anos de idade, eu fui à quadra do Salgueiro e comecei a frequentar os ensaios. Mas meus pais se separaram e eu fui morar em Pilares, onde passei a frequentar a quadra da Caprichosos, onde comecei como ritmista.
Qual a era a sua ocupação antes de se tornar mestre de bateria?
Antes de assumir a bateria de uma escola de samba, eu trabalhei com a cantora Simone, minha grande amiga , durante algum tempo. Isso começou em uma gravação do Fantástico (programa dominical da TV Globo) em um quadro onde teria a participação de ritmistas. Por ideia minha, ela tocou alguns instrumentos dentro da nossa bateria e foi um sucesso. A partir daí, ela levou isso para os seus shows e me convidou para tocar na banda dela.
Conte-nos um pouco da sua trajetória dentro do carnaval como mestre de bateria.
A minha primeira escola de Samba como ritmista foi a Caprichosos de Pilares (de 1986 a 1990 ), Viradouro (entre 1991 e 1996). Em 1995, eu recebi uma proposta da Beija-flor, mas já tinha acertado com a Portela, onde estive em 96 e 97, já à frente da bateria. No primeiro ano, eu obtive nota máxima, mas a má conduta da diretoria da escola no ano seguinte levou alguns ritmistas incorfomados a boicotaram a bateria no dia do desfile. Em 1997, fui convidado pelo atual diretor de carnaval da Beija-flor, para que o ajudasse a montar uma bateria com a cara da escola, que tinha perdido a identidade. Fiquei lá de 1997 a 2009, onde me identifiquei muito com a comunidade, que me acolheu de braços abertos. Lá conquistei seis títulos e cinco vice-campeonatos. Em 12 anos no comando da bateria da escola, só perdi três décimos.
Contra fatos não existem argumentos. Então, podemos dizer que a Beija-flor foi a escola com a qual você mais se identificou ?
Com certeza, eu tenho um carinho enorme, um amor muito grande pela escola e pela comunidade.
Qual foi o real motivo da sua saída da escola?
A minha saída se deveu exclusivamente às atitudes tomadas pelo Laíla. Em primeiro lugar, eu não concordava com a maneira como ele definia o critério de escolha do samba-enredo da escola, mas até ai tudo bem, não estava interferindo dentro do meu departamento. Mas infelizmente ele começou a se intrometer no meu trabalho, o que eu achava inadmissível. Eu tinha total liberdade do Sr. Anisio para trabalhar e fazer o meu trabalho que, diga-se de passagem, era bem feito. Se fôssemos considerar a Beija-flor uma empresa, eu era um funcionário que produzia e dava retorno à escola. O meu departamento, em 12 anos, perdeu somente três décimos, como ele ia se meter, não tendo nada de errado?
Chegou ao ponto de em um ensaio na Sapucaí ele querer colocar o dedo no meu rosto, isso eu não admito. Eu mereço respeito, como um funcionário que dava retorno à escola e como homem. Nunca faltei com o respeito a ele e nem me metia no trabalho dele. Com certeza o motivo foi o lado pessoal. Ele ficou incomodado com o meu sucesso alcançado dentro da escola,com o meu trabalho, meu carisma e a minha liderança natural.
Pelo seu trabalho à frente da escola, muito se especulava que você era o funcionário melhor remunerado lá dentro. Isso condiz com a realidade?
Eu só tenho a agradecer à Beija-flor pela oportunidade de desenvolver o meu trabalho com total estrutura, mas em relação à remuneração, eu recebia da escola o valor de R$ 1.000. Eu completava o meu salário com eventos, shows , palestras e com patrocínios. Falando em patrocínio, eu levei a rede de supermercados Guanabara para ser patrocinador da escola.
Ficou alguma mágoa pela maneira como foi conduzida a sua saída da escola?
Mágoa, não, mas logo quando saí da escola eu cheguei a ficar em depressão, tentando encontrar o real motivo para esse problema que estava acontecendo. Foi um período muito ruim na minha vida.
Mesmo assim, você ficou satisfeito com o título para a sua ex-escola neste carnaval?
Fico feliz pelo título da Beija-flor, uma vez que o grande homenageado é meu amigo.
Como é a sua amizade com o Rei Roberto Carlos ?
Uma amizade sincera e verdadeira que foi pautada na sinceridade. O Roberto é um cara super simples e uma figura humana incomensurável. Eu posso afirmar que eu levei Rei para o convívio da escola.
Você considera que o fato de trabalhar com seus dois filhos a cobrança era maior? Como é seu relacionamento profissional com Vitor e Douglas, que foram seus diretores de bateria?
É o que seu sempre falava com eles. Em casa é uma coisa, no trabalho era outra. Não tinham privilégios nenhum por serem meus filhos. A cobrança realmente era muito forte. Independente de serem meus filhos, eu sempre exigi, não só deles mas de todos os outros diretores, muito profissionalismo, dedicação e respeito com a escola. Teve um fato até inusitado. No enredo que a Beija-flor falava sobre a África, por divergências, eu cortei o Vitor do desfile.
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| No Carnaval 2011, mestre Paulinho coordenou a bateria do Salgueiro |
No quesito bateria, como você analisa atualmente o nível das baterias que passam atualmente na Avenida?
Hoje em dia, digamos assim, até por "imposição" dos jurados, a bateria passa com pouco rítmo e com muitas paradinhas. Mesmo tendo a certeza que a grande maioria dos mestres de atualmente tem totais condições de fazer, isso está prejudicando o andamento do desfile, uma vez que a sustentação do samba em si fica fraca. Gostaria até de fazer até um apelo a Liesa e à Riotur: não deixem a parte mais gostosa e emocionante do samba acabar. Essa história que inventaram de medir bateria de escola de samba com metrômetro é uma burrice, uma ignorância. O ritmista toca com amor, coração. Isso nasce com a pessoa.
Alguma bateria ou mestre que vem passando na Avenida marece um destaque da sua parte?
Eu cito o mestre Thiago Diogo (Porto Da Pedra), Marcone (Imperatriz) e o mestre de bateria da União de Jacarepaguá, Marcus Vinicius.
Como surgiu o convite e como foi a sensação de voltar a avenida em 2011 pelo Salgueiro?
Em primeiro lugar, gostaria de deixar bem claro aos outros mestres de bateria que, quando vou a alguma quadra, visitar, "curtir" um ensaio , não vou com o intuito de cavar ou tirar o lugar de ninguém. Quem me conhece sabe que tenho ética e respeito pelos meus colegas. Em dezembro de 2010, o "destemido" Marcão, essa figura humana maravilhosa pela qual eu tenho um total respeito , carinho e sou muito agradecido, convidou não só a mim, mas alguns mestres que estavam fora do carnaval, para vir à frente da bateria do Salgueiro com ele.
Existem rumores de que, se a presidente do Salgueiro, Regina Celi, for reeleita, mestre Marcão assume a vice-presidência da escola e você assume a bateria do Salgueiro. Isso é verdade?
Que eu saiba não, isso nunca chegou ao meu conhecimento, até porque, como falei, não tenho a intenção de tomar o lugar de nenhum colega, ainda mais o do Marcão.
Falando agora sobre fatos, como é voltar ao carnaval à frente de uma escola tão tradicional como a Unidos de Vila Isabel ?
É uma satisfação muito grande.Estou voltando ao carnaval, com muita garra e vontade de fazer o melhor pela escola ali no meu segmento, que é a bateria. A escola atende a tudo que é necessário para fazer um bom trabalho, tem uma excelente estrutura e dá totais condições de trabalho.
Como surgiu o convite para assumir a bateria da escola de Noel?
Gostaria de deixar bem claro que eu só aceitei começar a negociar depois que o Átila saiu oficialmente da bateria. O convite surgiu do próprio presidente Wilsinho que, junto ao (Evandro) Bocão, queria dar um outro rumo ao segmento de bateria. Então, optaram pela minha experiência e conhecimento no assunto, junto com a juventude e também conhecimento do Wallan. Foi tudo bem rápido; na quinta-feira, o presidente fez o convite, na sexta estava em Brasilia e conversamos pelo telefone e, já no sábado, fui apresentado.
Espera encontrar algum tipo de resistência dentro da bateria ou da escola?
Posso te adiantar que nunca fui tão bem recebido por nenhuma escola como fui na Vila Isabel. O mestre Mug, o próprio Wallan e todos os segmentos da escola me trataram com muito carinho e respeito. Que fique bem claro que estou chegando à Vila para agregar e somar junto ao Wallan, resgatando a tradição do ritmo da bateria da Vila Isabel.




Sou ritmista da Bateria da União de Jacarepaguá, e fiquei muito feliz ao ler a entrevista e vê-la citada por um Mestre como o Paulinho, que dispensa comentários.
ResponderExcluirTe desejo toda a sorte a frente da Suingueira.
Forte abraço.
Val.
Em tempo, o nome do Mestre da União de Jacarepaguá é Marcus Vinicius.